sexta-feira, 25 de junho de 2010

O segredo é entregar-se

Num dia de inspiração inventei a seguinte frase: se você não se entrega ao que faz, não conseguirá entregar aquilo a que se propôs. Coloquei a dita frase na minha página do “twitter” e um belo dia vi que minha sobrinha, que está para se formar, a copiou para a sua página, não sem colocar a observação “frase roubada da tia Iara”. Fiquei orgulhosa pelo “roubo”: alguém leu e gostou. E, melhor, acho que entendeu. Então percebi que às vezes temos coisas a dizer e não as dizemos por medo de não sermos entendidos, ou até mal interpretados. Mas são essas percepções, vindas do nada, que às vezes nos acordam para certas coisas...
De fato, há que se entregar inteiramente àquilo que se faz e que se elegeu como meta, para que o resultado apareça. E se entregar significa colocar todo o seu esforço, sua alma e sua intenção nas ações necessárias a concretizar o objetivo. Nem preconceitos, nem mau humor ou má vontade podem desviar do caminho. Aliás, quando temos um objetivo já temos 50% do que precisamos. O resto é empenho, força de vontade e convicção de que vai dar certo. Também nem sempre aquilo que achamos ser o correto ou o ideal vai bater com o que os outros pensam ou esperam de nós. Aí é o caso de fazer como a água do rio faz quando encontra pedras ou obstáculos: contorna-os, mas segue o seu curso.
A entrega pressupõe também que não se fique esperando as coisas caírem do céu, que alguém entregue o “produto” pronto. Isto já é outro tipo de entrega... O que dizer do cientista que passa meses ou anos pesquisando a fórmula para a cura de uma doença? Ou do médico, cuja missão incansável de salvar vidas lhe ocupe todas as horas do dia? Do maestro à procura da nota perfeita, para concluir uma sinfonia? O estudante empenhado em realizar um trabalho de conclusão de gabarito? Entrega.
Tem pessoas que acham que o mundo lhes deve algo. Assim se conduzem e se portam, na certeza de que são merecedoras, por excelência, de toda obra e graça que lhes é destinada, sem que precisem se dispor a qualquer movimento. Difícil que tal posicionamento diante da vida seja vitorioso. Nenhuma conquista é fácil durante o percurso. Implica, muitas vezes, renúncias, esperas, frustrações até.
O mundo não é feito só de corretos, sábios, ou aqueles que nunca erram. É feito também por aqueles que num ato de coragem se dispõe a empreender novas jornadas, mesmo com o risco de não chegar ao fim. São aqueles que se perguntam, diariamente, a cada minuto: estou contribuindo para um mundo melhor? São os que tem dúvidas, medos, mas tem também suas convicções e buscam um sentido para a vida. São pessoas comuns, que vivem suas vidas, mas sabem que o universo é maior e espera pela sua participação. Com entrega.

sábado, 12 de junho de 2010

"A única coisa que nos imortaliza - mesmo - é a memória de quem amou a gente." (Martha Medeiros)

Trabalho Infantil

Trabalho infantil é proibido. Está no art. 7º, XXXIII da Constituição Federal e no art. 60 do Estatuto da Criança e do Adolescente-ECA. Criança tem que estudar e brincar e ponto final. Também realizar atividades que se compatibilizem com seu estado de formação. É lei, é direito: até os 12 anos de idade, a pessoa é considerada criança. De 12 a 16 é adolescente. Portanto, protegida pela legislação que define a idade mínima para o trabalho em 16 anos. Antes disso, e só a partir dos 14 anos, apenas na condição de aprendiz devendo ser respeitada uma série de requisitos. Mas o que dizer daquelas que trabalham num ato de desespero para que a família, os irmãos menores não morram de fome? No Brasil e aqui mesmo, perto de nós, isto é uma realidade. Preferível estar trabalhando do que roubando dirá uma grande parte das pessoas. Mas não é. Qualquer trabalho de menores é exploração. É aproveitar-se da condição da criança, tanto os pais como o eventual empregador. “Isto porque tanto a criança como o adolescente são seres ainda em formação, tanto física, quanto psicológica, intelectual e moral. Logo, as suas atividades prioritárias são aquelas que estão relacionadas diretamente com esse desenvolvimento, como a freqüência a uma instituição de ensino, que propicia capacitação intelectual, e o exercício de atividades esportivas e recreativas, que desenvolvem o raciocínio e podem também propiciar a interação em grupo. Estas atividades devem ser a regra na rotina da criança; o trabalho, exceção.” Palavras do Procurador do Trabalho e Vice-coordenador da Coordenadoria Nacional de Combate à Exploração do Trabalho de Crianças e Adolescentes, do Ministério Público do Trabalho e ex-juiz do Trabalho, Rafael Dias.
Há poucos dias recebi um e-mail de um amigo leitor questionando sobre um interessante assunto: e as crianças que fazem novela na televisão? Às vezes bebês de colo, crianças com cinco, seis anos “trabalhando” em gravações de comerciais ou novelas. Tem até uma menina que anima programa de auditório, trabalhando sextas feiras, sábados e, algumas vezes, aos domingos. E aí? Não é exploração? É bem remunerado, mas será que a exploração tem a ver apenas com o dinheiro recebido ou não? Este assunto dá pano prá muita manga... Ainda mais se levarmos em conta que muitas atuações de crianças em espetáculos televisivos tem mais a ver com a vaidade dos pais, do que com qualquer outra coisa. Aliás, no Brasil, os pais são oficialmente os responsáveis pelos filhos. Ainda assim, dificilmente são punidos em caso de permissão do trabalho infantil, recaindo a mesma sobre quem contrata os menores, na maior parte das vezes.
No tema em questão (menores trabalhando artisticamente), há previsão de que o mesmo possa ser feito, desde que com autorização judicial. A autorização não pode ser geral, mas para cada trabalho específico. Não pode haver prejuízo da freqüência e bom aproveitamento da criança na escola, devendo ser resguardados os direitos de repouso, lazer e alimentação, dentre outros. Tudo bem. Mas e aí, a dúvida persiste. Porque este tipo de trabalho pode, então, ser autorizado e outros não?
Encontramos alguma explicação na literatura jurídica, dizendo que é admitida a possibilidade de exercício de trabalho artístico, desde que presentes alguns requisitos: excepcionalidade; situações individuais e específicas; ato de autoridade competente (autoridade judiciária do trabalho), além da prévia e expressa autorização dos pais ou representantes legais; existência de uma licença ou alvará individual; o labor deve envolver manifestação artística; a licença ou alvará deverá definir em que atividades poderá haver labor, e quais as condições especiais de trabalho. A criança deverá, ainda, estar sempre acompanhada de responsável legal, durante a prestação do serviço e uma parte da remuneração devida deverá ser depositada em caderneta de poupança.
Mesmo com todas estas justificativas, é de se entender a dúvida do leitor. São situações como estas que fazem do nosso Brasil, um país de contradições. Uns podem e outros não. A lei é rígida para alguns e para outros nem tanto. Por outro lado, é de se louvar que a legislação pátria tenha se preocupado em proteger a criança e dar prioridade a questões dessa importância. É conveniente lembrar que crianças e adolescentes, embora com talento e aptidão para as artes, não devem ser transformados em fonte de renda da família. Se a lei é cumprida ou não, isso já é outra história.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A ARTE DE FAZER UM JORNAL

No dia 01 de junho é comemorado o Dia da Imprensa. A data é sugestiva para se fazer uma reflexão sobre o tema “jornalismo” e também uma pequena homenagem pelo aniversário de quatro anos do jornal A Opinião.
Os fatos da vida são imprevisíveis. Para acompanhá-los o profissional do jornalismo precisa duvidar, circular por entre as fontes sem maiores comprometimentos ou envolvimentos, e, acima de tudo, preservar valores como a ética e a verdade. Isto é o que faz, em parte, o sucesso de um jornal. O veículo impresso de comunicação deve transmitir muito mais do que informações e conhecimentos, deve transmitir o entendimento de tudo isso.
Um jornal depende da confiança pública, já que numa democracia o poder é dos cidadãos. Neste universo diferencia-se o que é notícia de verdade do que só serve para preencher espaço. A realidade é desigual, possui os lados positivo e negativo. A notícia está no curioso, no estimulante, no drama e na tragédia, no que é capaz de abalar estruturas e pessoas e não só no comum, na normalidade, na comédia, no divertimento e no que conforma.
São quatro os deveres básicos do jornalista: a busca da verdade, o jornalismo independente, o dever do jornalista com os cidadãos (não ter vergonha de tomar o partido deles) e, por último, mas não menos importante, o dever com sua própria consciência. Fazer um bom jornal exige tudo isso. Esses ensinamentos são do jornalista Ricardo Noblat, em seu livro “A arte de fazer um jornal diário”, no qual se baseiam também algumas das considerações feitas neste comentário.
A relação de proximidade que se estabelece entre o jornal e o leitor é uma conseqüência de sua credibilidade. Um jornal não pode abdicar de valores que orientam o aperfeiçoamento da sociedade, tais como liberdade, igualdade social e respeito aos direitos fundamentais do ser humano.
Uma presença constante e ativa na comunidade como é a presença do jornal A Opinião é algo que foge à simples publicação de notícias e fatos. O jornal A Opinião é feito com alma e com arte. Feito com a emoção que permeia os acontecimentos da vida. Não se furta a denunciar o que entende necessário,
porém não deixa de se fazer presente nas ações de cidadania, engajando-se nas questões que envolvem a comunidade, priorizando valores como a ética e a democracia. Sempre em busca da verdade, com a liberdade que poucos ousaram conquistar.
Só o decurso do tempo não faz um jornal ficar bom, mas um jornal que é bom inscreve a sua história no tempo, fazendo da informação responsável uma missão.
A comunidade sapiranguense sabe, conhece e leva “A Opinião” no coração! Parabéns!

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Ficha Limpa

Com o slogan “Voto não tem preço, tem consequencias”, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral iniciou em 2008 uma campanha visando aumentar o rigor da lei em favor de eleições mais limpas. A campanha consistiu, num primeiro momento, na coleta de assinaturas em número necessário para um projeto de lei de iniciativa popular. Este projeto de lei previa que aquelas pessoas que foram condenadas ou tiveram denúncia recebida por um tribunal devido a fatos graves, como racismo, homicídio, estupro, tráfico de drogas e desvio de verbas públicas não poderiam se candidatar às eleições. Integrariam o rol dos inelegíveis também aqueles que renunciaram ao cargo para evitar processo por quebra de decoro parlamentar ou desrespeito à Constituição, bem como os que foram condenados em representações por compra de votos ou uso eleitoral da máquina administrativa.
Pois bem, a Câmara dos Deputados já havia aprovado e o Senado aprovou, no último dia 19, o projeto de lei que estabelece casos de inelegibilidade. Falta agora o Presidente da República sancionar a lei, para que ela possa valer já nas eleições deste ano. Outra questão abordada são os prazos para a inelegibilidade após as infrações. Pela lei atual varia de acordo com o tipo de infração e quem cometeu. Por exemplo, para deputados e senadores era de oito anos, para governadores e prefeitos, três anos. Pela nova lei passa a ser oito anos, após o mandato, independente do crime e de quem cometeu. Também com a nova lei, não é mais necessário o trânsito em julgado (quando não há mais chances de recurso), basta a decisão de um colegiado (grupo de juízes), em segunda instância, para o político ficar inelegível.
Dito isso, penso que todos os cidadãos brasileiros devam estar, no mínimo, satisfeitos com o resultado da votação. Trata-se de uma questão de princípios. É importante considerar o histórico do candidato, afinal ele fará parte e poderá influenciar, num futuro próximo, a vida de todos nós. Se a lei entrar em vigor e for cumprida à risca poderá mudar, aos poucos, o cenário político brasileiro. Enquanto isso, o eleitor que se sentia desmotivado ou decepcionado vislumbra uma luz no fim do túnel, pois poderá optar entre candidatos realmente comprometidos com a cidadania.

sábado, 22 de maio de 2010

Certidões de vida

Trabalhei durante muitos anos num Cartório. Para ser mais precisa, por catorze anos no Tabelionato de Sapiranga. Foi onde peguei gosto pelo Direito. Foi também onde aprendi muitas coisas e dentre elas a analisar e observar documentos que, diariamente, passavam por minhas mãos. Documentos de todos os tipos, como certidões, carteiras de identidade, passaportes, títulos de eleitores, enfim, de tudo um pouco.
Desde aquela época, quando pego algum desses “papéis”, costumo examiná-lo detidamente, verificando datas, nomes, lugares, profissão, endereços. Ficava imaginando de que maneira o papel refletia a vida da pessoa que era sua dona. Hoje, não posso negar, ainda tenho esse hábito. Então, me coloco como uma espécie de espectadora à distância do evento documentado, imaginando os detalhes e pormenores e montando uma espécie de quebra cabeças mental.
Uma certidão de casamento, por exemplo, pode levantar indagações assim: como teria sido o dia do casamento? Estava frio, quente, ensolarado ou chovia? Talvez fosse primavera... E como era o vestido da noiva? O local tinha flores? Música? Imagino o nível de felicidade dos noivos. Trocaram olhares? O que sentiram, o que estariam esperando da vida, depois daquele momento? Seus sonhos se concretizaram? Continuaram exercendo a profissão que consta na certidão? Será que ainda compartilham o mesmo ideal? Para onde a vida os conduziu? Tiveram filhos, será? Se a certidão é de nascimento, bom começar pela hora do parto. Depois ver o dia, mês e ano do nascimento, o nome e profissão dos pais, quem são os avós. E aí, em que momento da vida dessas pessoas esta criança chegou? Foi desejada, esperada e amada? Teve boa saúde? Quem é hoje e como será amanhã? O que acontecia no mundo, naquele exato dia? De uma certidão de óbito surgem questões peculiares. Verificando a hora em que ocorreu o falecimento, é de se perguntar se alguém esteve junto com a pessoa nesse momento? Qual teria sido seu último pensamento? Faltou algo a ser feito? Algum desejo ou sonho não realizado? Sofreu ou despediu-se da vida serenamente? O que significou a perda desta pessoa para os que ficaram?
Quantas histórias podem estar contidas num simples pedaço de papel, cheio de dados informativos... Claro que muitas destas perguntas ficam sem resposta mesmo, apenas na base da imaginação. Muitos documentos se apresentam bem amarelados, denotando que as histórias dessas vidas já aconteceram há muito tempo. Alguns, parece que estiveram na guerra (dos farrapos...) de tão destruídos que estão. Outros são mais recentes, histórias ainda acontecendo. Tem os bem conservados, a demonstrar o valor que representam.
De tudo isso se percebe que não importa a idade dos papéis, as perguntas podem ser atuais. E podem ser formuladas a nós mesmos, enquanto também personagens de nossa própria história, ainda em tempo de ser vivida ou modificada.
A História da humanidade, afinal, é assim também, feita de documentos. Por isso sua importância. Na verdade, os documentos falam... É preciso, apenas, entendê-los.

sábado, 15 de maio de 2010

"O caminho da vida pode ser o da liberdade e da
beleza, porém, desviamo-nos dele.
A cobiça envenenou a alma dos homens, levantou
no mundo as muralhas do ódio e tem-nos feito marchar
a passo de ganso para a miséria e os morticínios.
Criamos a época da produção veloz, mas nos
sentimos enclausurados dentro dela.
A máquina, que produz em grande escala,
tem provocado a escassez.
Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa
inteligência, empedernidos e cruéis.
Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.
Mais do que máquinas, precisamos de
humanidade; mais do que de inteligência, precisamos de
afeição e doçura!
Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo estará perdido."

(Charles Chaplin, em discurso proferido no final do filme O grande ditador.)